quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

TRABALHO: CONCEITO, TRANSFORMAÇÕES E SENTIDO

INTRODUÇÃO


Este ensaio tem por objetivo analisar o trabalho envolvendo seus conceitos e suas transformações ocorridas através dos tempos até os dias atuais, relevando sua importância como processo de interação social entre os indivíduos. Esta análise se fez necessária a partir da compreensão de trabalho por parte de muitos jovens, principalmente entre aqueles que ainda não adentraram nesse mercado, que veem o trabalho como algo árduo, apenas para o próprio sustento e como realização apenas através de registro profissional em carteira de trabalho. Os jovens aqui compreendidos são integrantes de cursos profissionalizantes na área de artes gráficas, especificamente no curso de Produção Gráfica, ministrado pelo próprio articulista deste texto. Partindo dessa premissa, pretende-se aqui abordar a temática trabalho provocando certa sensibilização nesses mesmos jovens, de maneira que possa produzir satisfação, consequente auto-estima, comprometimento e produtividade. Na primeira parte, definiremos o conceito trabalho para em seguida tratar de sua utilização, precarização ou evolução. Então, o trabalho será analisado como inerente à atividade humana, sendo catalisador de profundas modificações pessoais, sociais e políticas.


O CONCEITO DE TRABALHO


Raymond Willians, através do seu livro Palavras-chave, apresenta o trabalho dentro de várias significações. Dentro da classificação de realização de algo ou algo realizado, seu conceito se amplia significativamente. Como especialização, significa emprego regular e remunerado, ou seja, só trabalha quem recebe por aquilo que realiza. Dentro deste conceito, uma mulher que cuida dos filhos em casa não trabalharia. Só trabalhava que estivesse empregado.


“o sentido fundamental da palavra, para indicar atividade e esforço ou realização, foi modificado, ainda que de modo desigual e incompleto, pela definição de suas condições impostas, tais como um trabalho ‘fixo’ ou com horários, ou o trabalho em troca de uma remuneração ou salário: ser contratado.” (1978/83:396)


O autor também relaciona trabalho (work) e LABOUR, como algo sacrificante, penoso. Seu vínculo com a realização de trabalhos manuais gerou um sentido mais geral de atividade.

Nota-se, dentro desses conceitos, e principalmente com o “desenvolvimento das relações produtivas capitalistas”, que o trabalho acabou fortemente relacionado a um emprego, uma apropriação das empresas para produção de mercadorias, tornando-se uma atividade desvinculada de prazer, de satisfação, apenas uma obrigação necessária principalmente ao sustento do próprio indivíduo.



O TRABALHO ENTRE O FORDISMO E A ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL


O trabalho passou por grandes modificações como atividade relacionada à produção. A transição e as diferenças entre o modelo fordista e toyotista implicaram em mudanças no relacionamento do trabalhador com seu trabalho e sua produção:


“O toyotismo é uma resposta à crise do fordismo nos anos 70. Ao invés do trabalho desqualificado, o operário torna-se polivalente. Ao invés da linha individualizada, esse se integra a uma equipe. Ao invés de produzir veículos em massa para pessoas que não conhece, ele fabrica um elemento para a ‘satisfação’ da equipe que está na sequencia da sua linha... Em síntese, com o Toyotismo, parece desaparecer o trabalho repetitivo, ultra-simples, desmotivante e embrutecedor. Finalmente, estamos na fase do enriquecimento das tarefas, da satisfação do consumidor, do controle de qualidade.”

(Gounet, 1991:43, citado por Ricardo Antunes, 1995 28-29)


Não é a proposta deste trabalho se aprofundar no estudo das mudanças desses processos, mas sim demonstrar seus reflexos para o trabalhador enquanto participante dessas transformações. O toyotismo, então, tem como principal característica a ser evidenciada uma flexibilização na produtividade, adequando essa produção à lógica do mercado capitalista. O profissional/trabalhador, dentro dessas transformações, é provocado a se adaptar, envolvendo necessidades de especialização para adequação ao espaço de trabalho. A tabela abaixo, retirada do livro Condição pós-moderna de David Harvey (1994), apresenta as principais transformações ocorridas no mundo do trabalho dentro dessa transição, realizada por Swyngedouw em 1986:


FORDISMO

TOYOTISMO

Realização de uma única tarefa pelo trabalhador

Múltiplas tarefas

Pagamento pro rata (baseado em critérios da definição do emprego)

Pagamento pessoal (sistema detalhado de significações)

Alto grau de especialização de tarefas

Eliminação da demarcação de tarefas

Pouco ou nenhum treinamento no trabalho

Longo treinamento no trabalho

Organização vertical do trabalho

Organização mais horizontal do trabalho

Nenhuma experiência de aprendizagem

Aprendizagem no trabalho

Ênfase na redução da responsabilidade do trabalhador (disciplinamento da força de trabalho)

Ênfase na co-responsabilidade do trabalhador

Nenhuma segurança no trabalho

Grande segurança no emprego para trabalhadores centrais (emprego perpétuo). Nenhuma segurança no trabalho e condições ruins de trabalho para trabalhadores temporários.


Dentro da proposta desse trabalho, faz-se necessário criar um paralelo com o mundo do trabalho estudado especificamente aqui, o da indústria gráfica. Os profissionais gráficos, após os anos 80, com a digitalização do processo gráfico, através da linguagem Postscript, criada pela Adobe Systems, que transformou o processo gráfico da área manual para a editoração eletrônica através dos computadores, tiveram que, forçosamente e rapidamente, se adaptar a esse novo mercado. O processo de automatização crescente, através dos softwares no computador e das novas linguagens acopladas aos equipamentos gráficos, abriu novas perspectivas para os profissionais desta área. Várias das mudanças apresentadas na tabela acima foram e continuam sendo aplicadas nesse mercado de forma acentuada:


1) Automatização

Com o processo de automatização, aumenta-se a necessidade do conhecimento de conceitos que privilegiam o uso da máquina para uma finalidade específica, provocando o conhecimento mais amplo e aprofundado de toda a produção gráfica, compreendendo suas múltiplas tarefas.


2) Terceirização

Com o crescimento dos softwares gráficos e a facilidade de aquisição pela “pirataria” (cópias ilegais), precarizou-se a valorização do profissional, resultando em custos baixos na produção de trabalhos e queda na qualidade.


3) Freelancers

A possibilidade de realização de trabalhos temporários pelos chamados freelancers, profissionais autônomos, pela fácil aquisição de ferramentas para produção, são exemplos dessa precarização pelas condições ruins no que tange às condições de trabalho.


4) Especialização

A necessidade de especialização na indústria gráfica justifica-se pela dinâmica produtiva da área. Como trabalha predominantemente com impressão, faz-se necessário que profissionais já possuam experiência e conhecimento nos processos para que a produção não seja interrompida, acarretando possíveis prejuízos para as empresas.


Dados mais abrangentes do mercado gráfico podem ser visualizados no recente Estudo Setorial da Indústria Gráfica no Brasil, material realizado pela Associação Brasileira da Indústria Gráfica, em 2009.



O TRABALHO COMO ATIVIDADE HUMANA


“Como dispensar o conhecimento do homem do campo, iletrado, sobre o terreno de seu trabalho, sobre o clima, os ventos, a Lua? Como menosprezar o conhecimento tradicional dos povos da floresta sobre as folhas, raízes e sementes de plantas curativas, comestíveis, daninhas, venenosas? Como desprestigiar o saber dos cheiros e sabores; do trato com os animais e da sobrevivência na floresta? Serão eles mesmos intelectuais? A atividade do trabalho para a sobrevivência que realizam é menos importante? Para nós, que vivemos na modernidade do capitalismo tardio, elas não tem valor, porque não servem ao acúmulo do capital. No entanto, essas são atividades de trabalho que exigem um saber e uma produção intelectual para extrair de um meio tão adverso o meio de vida.”

(Roseli Fígaro, Gestão da Comunicação, orgs., 2005:131)


Um aspecto ainda não abordado anteriormente mas de fundamental importância para aqueles que desejam compreender de forma mais abrangente e aprofundada o conceito de trabalho e que ainda não possuem a experiência profissional é sua realização como atividade humana, individual, profundamente estudada pelo professor francês Yves Schwartz, diretor-científico do Departamento de Ergologia da Universidade de Provença, na França. Conforme Raymond Willians, Humano “faz parte de um grupo complexo de palavras e representa, em alguns ou em todos os seus sentidos, especializações particulares de uma palavra raiz para homem (do latim homo, hominis – homem, de um homem -; humanus – de ou próprio dos homens) (Palavras-chave, 1978/83:205).


E o que diferencia o homem dos animais? O antropólogo Maurice Godelier diz que “o homem não é um animal social como os outros animais; ele vive em sociedade, mas tem a particularidade de produzir sociedade para viver”. (L’Idéel ET Le Matériel, 1984). O homem participa ativamente na sociedade, diferenciando-o dos outros animais, e dentro de suas tensões sociais, o trabalho, junto com outras paixões, como a arte, por exemplo, entra como uma das formas de trazer equilíbrio para seus conflitos internos, fazendo parte da necessidade humana. Christine Revuz, psicóloga clínica e analítica, entende o trabalho como objeto duplo, dando-lhe dois sentidos:


“- por um lado ele pertence à realidade, ou seja, é constituído por um certo número de exigências econômicas, técnicas, físicas, jurídicas;

possui uma dimensão coletiva, existe enquanto objeto social;

... mas, ao mesmo tempo, ele existe enquanto objeto de desejo, com esta dimensão imaginária. Enquanto objeto de desejo, ele é portador de investimentos que podem ser perfeitamente inconscientes para a pessoa, que remetem a essa equação enigmática: como a pessoa se arranjou considerando sua identidade sexual, suas relações com os pais, com a morte, com a sua capacidade de estar com o outro. E tudo isso leva a alguma coisa, uma espécie de funcionamento completamente enigmático, que vai produzir um movimento em direção a certas atividades de trabalho.” (Trabalho e Ergologia, org., 2007:229).


O trabalho extrapola os limites internos das paredes das fábricas para invadir os ambientes externos, familiares, domésticos. Sendo inerente ao homem, como desejo e necessidade, não deve ser entendido apenas como uma atividade normalizada para fins apenas profissionais. Restringir o trabalho apenas a essa âmbito é diminuir a dimensão do homem como partícipe nas mudanças sociais, amesquinhando-o. Chrstine Revus (2007), quando trata da atividade profissional, assinala quatro eixos fundamentais para compreendê-la:


- o primeiro eixo está relacionado à dimensão do ter, da necessidade de trabalhar, da sobrevivência, da dependência;

- o segundo eixo remete à dimensão do ser, da identidade no meio social, da constituição da pessoa e afirmação frente ao outro nos seus relacionamentos;

- o terceiro eixo é sua representação coletiva, social, de “estar com os outros”, de se relacionar dentro da instituição;

- e o quarto e último eixo é o da atividade do trabalho, o do fazer, o do produto realizado.


Acredito ser este último eixo de fundamental importância para se entender o motivo, o sentido do trabalho. Qual a importância daquilo que realizo no trabalho? A atividade se resume na peça ou dentro da sociedade, na sua função social? Uma faxineira, quando limpa o chão de uma Universidade, está apenas deixando o piso mais limpo ou está facilitando e privilegiando a entrada mais tranquila das pessoas no ambiente tornando-o mais agradável. Um professor, é apenas um transmissor de conteúdo ou está capacitando pessoas para se tornarem sujeitos mais ativos e importantes na vida social. Roseli Fígaro, professora-doutora da Universidade de São Paulo, acertadamente nos diz que


“O trabalho não desaparece no produto produzido, pois se renova na atividade humana. Faz o indivíduo progredir no domínio de seu ser, predispondo-o como um ser criador. Mas o produto do trabalho incorpora um valor: o trabalho – único valor capaz de criar e transformar o material e o imaterial.

Nesse sentido, quando é privatizado na forma de mercadoria, retira da coletividade um bem que pertence a todos.”

(Faces da Comunicação e da cultura organizacional, org., 2010:99)


Estudar o trabalho dentro dessa perspectiva pode trazer mais sensibilização e satisfação na atividade profissional, tornando-a mais humana, responsável e produtiva. Faz com que se torne algo mais íntimo, principalmente para os mais jovens, que estão se formando para esse mercado, realizando-se profissionalmente. O compromisso com si-mesmo, proporciona comprometimento com a atividade e, consequentemente, com a sociedade através do trabalho realizado. Roseli Fígaro complementa dizendo que


“Trabalhar é a singularidade do uso que o sujeito faz de si para a produção de algo. A consciência da singularidade do uso de si próprio permite a objetivação e a desnaturalização das atividades de trabalho. O sujeito no trabalho coloca-se por inteiro em atividade. Ele põe em movimento a energia de seu corpo, seus sentidos, sua experiência física e intelectual – o corpo em relação ao meio, aos instrumentos e as técnicas. Ele também aciona suas relações com o meio social, seus parceiros de trabalho, os colegas e os chefes. Convoca também as relações com o grupo social: a família, o bairro, sua história de vida.”



O ESPAÇO TRIPOLAR DE YVES SCHWARTZ


A abordagem anterior relacionando o trabalho à atividade humana como manifestação do humano através do transbordamento do ser enquanto sujeito social vem complementar a abordagem inicial mais mecanicista realizada no começo deste trabalho, tratando mais do sistema de produção entre o fordismo e o taylorismo. O objetivo desta abordagem, como mencionado na introdução, é conceituar trabalho relevando aspectos privilegiados na contemporaneidade, por isso tornou-se evidente a preocupação em destacar a segunda parte relacionada mais à atividade humana. Dentro desta perspectiva, utilizaremos aqui os três eixos criado por Yves Schwartz que acredito ser de suma importância para a formação contínua daqueles que queiram ingressar no mercado de trabalho ou pretendem apenas se manter nele. Esses três eixos servem como parâmetro para uma formação para o trabalho em todas as suas dimensões, incluindo especialização e mercado.


Os três eixos se dividem em:

1) Pólo da atividade

O pólo da atividade envolve o fazer propriamente dito. São as atividades no trabalho com fortes vínculos com as regras antecedentes. Nesta fase, então, opera-se os conflitos entre o saber e o realizar dentro do espaço do trabalho. É o que Schwartz chama de “dramas do uso de si” nas situações de trabalho.

2) Pólo do mercado

Aqui são representados os valores vinculados ao mercado no que se refere à área mais burocrática, envolvendo hierarquia e poder. Aplica-se aqui a necessidade de resultados quantitativos que envolve os interesses corporativos, inerentes ao mercado de trabalho.

3) Pólo do político

Esse é o pólo dos “valores sem dimensão” envolvendo o trabalhador/cidadão e a instituição, com fortes vínculos com o pólo anterior (regras, normas e hierarquias) objetivando questões envolvendo concorrência, lucros e capitalização de investimentos.

A compreensão pelo indivíduo envolvido no mercado de trabalho sobre o espaço tripolar de Schwartz é de fundamental importância para que ele perceba as dimensões que envolve o mundo do trabalho, para que se compreenda que vários aspectos influenciam sua dinâmica como profissional, entendendo e atendendo necessidades internas e externas que abrangem questões pessoais, mercadológicas e políticas. Yves Schwartz resume a importância da compreensão pelo trabalhador dos três pólos mencionados acima:


“Eu, enquanto cidadão, reivindico que minha vida seja vivível, em compatibilidade com o que me seja demandado no contexto da subordinação jurídica, ou da encomenda mercantil no pólo II. Não me recuso, em absoluto, ou não necessariamente, essa demanda mercantil, mas quero apenas que ela seja compatível com meu estatuto de cidadão. Se ela não for diretamente compatível com esse eixo I – II (cf. a negociação entre “parceiros sociais”) demando ao Estado que compra seu papel. Uma vez que ele não o faça, se o Estado não me permitir assegurar minha vida e meu papel de cidadão, deixo de acreditar nele ou então passo a votar contra esta maioria parlamentar que está criando essas leis.” (Trabalho e Ergologia, 2007:259).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A importância do objeto trabalho para o sujeito extrapola questões meramente profissionais, de atendimento às necessidades mercadológicas compreendendo fatores relacionados a lucro, investimentos e questões afins. Por se tratar de atividade exclusiva do humano, partindo do homem com todas as suas singularidades que o fazem ser diferente de qualquer outro animal através do raciocínio lógico-intelectual e que, por isso, pode interferir em suas diversas esferas, não tem como restringir as potencialidades do trabalho apenas ao espaço institucional. As possibilidades de abordagem desse tema são enormes, no entanto, privilegiou-se aqui refletir sobre o trabalho como fundamental condutor da formação do jovem, dando-lhe o poder de compreender as dimensões que envolvem esse mundo, sensibilizando-o quanto a seus direitos e deveres. Obviamente o assunto não se esgota neste trabalho, mas que sirva de contribuição para que o tema seja mais bem tratado pelos principais envolvidos no ramo, sejam eles mandatários ou subordinados.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 3ª. ed. São Paulo: Cortez/Edunicamp, 1995.

FIGARO, Roseli. (org.) Gestão da comunicação – no mundo do trabalho. Epistemologia e pesquisa teórica. São Paulo: Paulinas, 2009.

FIGARO, Roseli. O homem, a cultura e as relações de comunicação no mundo do trabalho. In: Marchiori, M. Faces da cultura e da comunicação organizacional. S.C.S./SP: Difusão, 2010. p.91 a 104.

HARVEY, David. Condição pós-moderna. 4 ed. São Paulo: Loyola, 1994.

SCHWARTZ, Yves. Trabalho e Ergologia. Rio de Janeiro: UFF, 2007.

WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave. São Paulo: Boitempo, 2007.

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