Este trabalho tem por objetivo estudar a arte em seus relacionamentos com a cultura e comunicação, na sua formação e produção, passando pelos estudos culturais, as escolas relacionadas à teoria da comunicação e sua proposta estética ou mercadológica, fundamentando através de alguns autores e seus estudos em determinadas épocas. A arte apresenta divergências quanto à sua criação, produção e finalidade, sejam eles de ordem estética ou de mercado, sem que um exclua necessariamente o outro. Não se pretende aqui fazer um estudo aprofundado sobre a arte, mas abordar causas e resultados, e também sua importância como propulsora dos relacionamentos sociais e como forma de expressão.
ARTE É CULTURA
Arte, do latim Ars, artis, corresponde ao grego tékne, significa técnica ou habilidade de produzir algo para um determinado fim. Dentro dessa definição, podemos dizer então que essa técnica ou habilidade na produção está vinculada ao aprendizado de ferramentas para sua realização, seja, por exemplo, um lápis, um pincel, um instrumento musical, um mouse, dispositivo ligado ao computador, dentre outras. Ou seja, qualquer dispositivo serve para produzir arte. Pode-se então concluir que, de acordo com a ferramenta utilizada, produz-se um tipo de arte: desenho, pintura, música, arte digital etc. Qualquer pessoa que, utilizando-se da técnica e habilidade com essas ferramentas produz arte, então, é um artista.
No entanto, a técnica e a habilidade desta produção artística não se basta apenas pelas ferramentas. Todo artista que se utiliza dessas ferramentas e produz arte tem o propósito de transmitir uma mensagem, de dizer algo.
No livro Introdução à Filosofia da arte, de Benedito Nunes, a arte é definida como
“modo de ação produtiva do homem, ela é fenômeno social e parte da cultura. Está relacionada com a totalidade da existência humana, mantém íntimas conexões com o processo histórico e possui a sua própria, dirigida que é por tendências que nascem, desenvolvem-se e morrem, e às quais correspondem estilos e formas definidos. Foco de convergência de valores religiosos, éticos, sociais e políticos, a arte vincula-se à religião, à moral e à sociedade como um todo, suscitando problemas de valor (axiológicos), tanto no âmbito da vida coletiva como no da existência individual, seja esta a do artista que cria a obra de arte, seja a do contemplador que sente os seus efeitos.” (2005:15)
Conclui-se deste trecho que a arte é o resultado do contato do sujeito com o meio em que vive, sua experiência humana conectada com valores religiosos, morais, éticos e políticos de determinada épocas e determinadas culturas (por isso as várias escolas e movimentos artísticos diferentes). O artista, então, seria um tradutor da realidade, aquele que, dentro de da sua bagagem cultural, das suas experiências culturais acumuladas, formada por sua relação com a sociedade e com a natureza, produziria\comunicaria uma visão de mundo através de uma obra, uma obra de arte. Qualquer indivíduo, independente de classe social, relacionando-se com a sociedade, então, produz cultura, produz arte. E esta obra de arte, produzida, também é apreciada, contemplada pelo receptor. Posteriormente apreciaremos a estética na obra de arte. Primeiramente, utilizaremos estudos relacionados à cultura para explicarmos as diferenças na produção artística.
ESTUDOS CULTURAIS E COMUNICAÇÃO
“Até pouco tempo atrás, pensar a cultura era pensar um mapa claro, sem rugas: a antropologia encarregava-se das culturas primitivas e a sociologia, das modernas. O que implicava duas ideias opostas de cultura: para os antropólogos, tudo é cultura, pois no magma primordial em que habitam os primitivos o machado é tão cultura quanto o mito, a maloca é tão cultura quanto às relações de parentesco, o repertório das plantas medicinais ou aquele das danças rituais; já para os sociólogos, cultura é somente um tipo especial de atividades e objetos, de produtos e práticas, todos pertencentes ao cânone das artes e das letras.” (Jesús Martin-Barbero, Por uma outra comunicação (org), 2003:77)
A abordagem sobre cultura é ampla. No livro Pesquisa em Comunicação, de Maria Immacolata Vassalo de Lopes (2005), cultura é conceituada dentro de dois paradigmas: funcionalista e marxista. Dentro do paradigma funcionalista, o enfoque se dá na análise centrada no receptor, o aspecto psicossociológico e psicolingüístico e a preocupação com conceitos operacionais. Já no paradigma marxista, a análise se dá no produto e não na produção cultural, opera com modelos macroestruturais, aspectos ideológicos e o sentido da ação social são privilegiados na abordagem interpretativa. A cultura é apropriada, dentro da Escola de Frankfurt (paradigma marxista), como um produto, uma mercadoria. Dentro do conceito de indústria cultural, elaborado por Adorno e Horkheimer em meados dos anos 40, a cultura seria padronizada conforme a fabricação serializada de automóveis. Os bens culturais produzidos sofreriam um processo de adaptação a essa indústria que tiraria o objetivo filosófico-existencial dessa produção (Matterlart, 1998). Uma outra abordagem, funcionalista, privilegia o sujeito na sua relação cotidiana. Dentro do conceito de Interacionismo simbólico, Herbert Blumer, em 1937, resume as três premissas desse método:
os seres humanos agem em relação às coisas dentro da significação que elas têm para eles;
a significação dessas coisas variam conforme o contato do sujeito com outros atores;
essas significações são modificadas conforme o relacionamento do sujeito com as coisas.
Durante muito tempo a ação ativa do sujeito na produção cultural dentro da sociedade foi ignorada. A partir dos estudos de Raymond Williams e E.P. Thompson, esse conceito começou a ser alterado. Segundo eles, o papel do indivíduo nas relações cotidianas está em primeiro plano. Entenda-se o indivíduo dentro de suas subjetividades e identidades, dentro da sua recepção de acordo com diversos significantes expostos no seu meio social, que, conforme Roland Barthes
“têm uma estreita relação com a cultura, o conhecimento, a história e é através deles, por assim dizer, que o meio ambiente invade o sistema linguístico e semântico.” (Barthes, 1998)
Cultura está intrinsecamente ligada à comunicação. Os dois conceitos se confundem. Barbero nos fala sobre a natureza comunicativa da cultura, “pois as culturas vivem enquanto se comunicam umas com as outras e esse comunicar-se comporta um denso e arriscado intercâmbio de símbolos e sentidos”. (Idem, 68.). Quando entrevistado pela professora da Universidade de São Paulo, Maria Immacolata Vassalo Lopes, para a revista Matrizes, Barbero volta a relacionar cultura e comunicação como a segunda sendo uma produção da primeira dentro da nossa própria vida social (2009).
CULTURA POPULAR E DOMINANTE
Dentro da perspectiva Gramsciana, Maria Immacolata afirma que
“numa sociedade de classes, a diversidade de situações objetivas produz um complexo campo de representações onde coexistem culturas não somente diferentes, mas desniveladas basicamente em dois planos, a cultura hegemônica e as culturas subalternas, conectadas com a divisão em classes e consequentemente distribuição diferenciada do poder e da fruição da cultura.” (Immacolata, 2005:54).
Conceitos relacionados à definição do que é arte/cultura popular e hegemônica se confundem nas análises de diversos autores. Segundo Gramsci, “o que distingue o canto popular no quadro de uma nação e de sua cultura não é o fato artístico, nem a origem histórica, mas seu modo de conceber o mundo e a vida, em contraste com a sociedade oficial”. (Gramsci, 1978:190). Além disso, a definição do popular se confunde na análise gramsciana principalmente quando ele afirma que o popular não se define pela sua origem, mas pelo seu uso. O exemplo que transcrevo abaixo sobre os cantos populares ilustra bem a dificuldade da definição de cultura popular:
cantos compostos pelo povo e para o povo;
os compostos para o povo e não pelo povo;
os escritos nem pelo povo nem para o povo, mas por este adotados, pois adequados à sua maneira de sentir e de pensar. Parece-me que todos os cantos populares podem e devem ser reduzidos a esta terceira categoria. (Gramsci, idem)
Segundo esta análise, uma música produzida pela classe dominante pode se tornar popular se adotada pelo povo. Só torna-se popular aquilo que o povo consumir, independente de sua origem produtiva.
A classe dominante também pode se utilizar da cultura, e consequentemente, da arte, como uma mercadoria, retirando sua função que privilegia o senso crítico. Desta forma, a confusão se dá pela adoção da cultura popular pela classe dominante, invertendo esses papéis. Segundo Adorno, que era um estudioso da música, a arte, integrada ao sistema, torna-se ornamento da vida cotidiana, criticando o que ele chamava de “felicidade fraudulenta da arte afirmativa” (1969). Mas, mesmo integrada ao sistema, a arte pode servir para fins opostos, sendo utilizada até como oposição ao próprio sistema, conforme nos diz Canclini:
“uma canção produzida por motivações puramente estéticas logo alcança uma repercussão massiva e lucros como disco, e, finalmente, apropriada e modificada por um movimento político, se torna um recurso de identificação e mobilização coletivas.” (Canclini, Consumidores e cidadãos, 1995:67)
A REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA DE WALTER BENJAMIM
Walter Benjamim (1892-1940), membro da escola frankfurtiana, através de seu livro intitulado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de 1933, identifica a obra de arte como inerente à sua reprodutibilidade, tirando aquela concepção de arte “aurática”:
“A reprodução técnica do som iniciou-se no fim do século passado. Com ela, a reprodução técnica atingiu tal padrão de qualidade que ela não somente podia transformar em seus objetos a totalidade das obras de arte tradicionais, submetendo-as à transformações profundas, como conquistar para si um lugar próprio entre os procedimentos artísticos.” (Benjamim, 1978:167)
Segundo Benjamim, a reprodutibilidade estaria vinculada à necessidade de se possuir a obra de arte, de se fazer as coisas “ficarem mais próximas”. O conceito de aura, “de uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais” estaria em declínio devido à reprodução da imagem autêntica, a sua cópia. Walter Benjamim diz que
“retirar o objeto do seu invólucro, destruir sua aura, é a característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar “o semelhante no mundo” é tão aguda, que graças à reprodução ela consegue captá-lo até no fenômeno único.” (idem: 170)
No entanto, o culto à obra de arte pode não se perder devido a sua reprodutibilidade, a sua perenidade. O apuro técnico na obra de arte, aliado à criatividade do artista, vinculado ao relacionamento do sujeito com a sociedade, faz com que a obra de arte ganhe força e continue emocionando. Jesus Martín Barbero, quando entrevistado para a revista Matrizes da Universidade de São Paulo, diz que quando lecionava estética, explicava arte a partir da filosofia além de suas épocas históricas e pela sociologia relacionava a arte com a sociedade (Barbero, 1995). Dessa forma, a arte está para o indivíduo independente de sua cópia e reprodução física, material, mas sim pela sua representação no imaginário, perenizando um período vivenciado entre o sujeito e seu meio. A reprodução se torna, assim, um objeto de culto pelo valor simbólico que tem, mantendo seu aspecto “aurático”.
O BELO NA ARTE
As abordagens anteriores, através do relacionamento entre arte e cultura, demonstram que qualquer produção de cultura é arte, fazendo com que qualquer indivíduo, independente de classes sociais, relacionando-se com a sociedade, seja um artista. Mas, e a presença do belo na arte. Onde está a beleza na arte? Quem é o belo na arte? Está na técnica privilegiada ou no relacionamento do indivíduo com a obra?
A obra de arte, quando cultuada, torna-se bela para qualquer um que a aprecie. Torna-se obra prima. Mas não por valores necessariamente técnicos, mas principalmente pelo seu valor para o sujeito na sociedade dentro de um certo contexto histórico-social, relacionamento afetivo, independente da mensagem que o artista quis transmitir. A beleza estaria no relacionamento do sujeito com a obra, no significado dela para ele. Max Bense, no livro Estética, diz que “o que se pinta, o que se escreve, o que se compõe hoje em dia, mostra-se, em primeiro lugar, como possibilidade de ser e só depois como qualidade estética” (Bense, 1973). O valor, na produção artística, estaria além de valores meramente técnicos. Oswald Spengler nos fala sobre o estilo:
“O estilo é o elemento que a inteligência artística não pode captar. É a relação de algo metafísico, uma obrigação misteriosa, um destino. Nada tem que ver com os limites materiais das artes particulares. Os limites que a arte tiver – limites de sua alma convertida em forma – serão históricos, e não técnicos ou fisiológicos. (Spengler, 1918:140)
A obra de arte, sem culto, torna-se objeto sem valor. Com ou sem sofisticação nos traços, nos arranjos, no roteiro, no texto, a obra tem sua importância pela sua representatividade, sua importância se dá para o indivíduo enquanto sujeito na sociedade, relacionando-se em seus diversos espaços. Assim, o que se “escreve” na arte pode ser lido de diversas maneiras, adaptada à realidades individuais. Stuart Hall se utiliza de uma obra de Shakespeare para exemplificar que
“uma obra desse autor pode ser produzida e lida da forma que se quiser. Existem centenas de leituras de Rei Lear. Entretanto, Shakespeare não estaria satisfeito com isso. Shakespeare quer que você veja Lear de um modo particular; ele quer fazer com que você não consiga ler essa peça de outra forma; você tem que ver Lear como o pai assediado. Se você escolhe lê-lo como um velho estúpido, que não tolera o fato de suas filhas trazerem muita gente para dentro de casa, essa é uma leitura aberrante.” (Hall, 2003:367).
Apesar da pretensão do artista, a leitura do sujeito modifica-se, fazendo com que a arte tenha um valor único, singular.
A ARTE FAZ O SUJEITO. O SUJEITO FAZ A ARTE.
Relacionamos, através dos diversos tópicos vistos anteriormente, a arte enquanto cultura, a arte enquanto comunicação, propondo uma nova visão sobre sua produção e proposta de criação. O intuito foi expor aspectos que levam à produção da arte e também sua finalização e reprodução, explicar quais seus motivos e apropriações. Mas, acima de tudo, confirmar que arte é o resultado da interação do sujeito com sua cultura e da cultura com o sujeito, traduzindo a realidade através da obra de arte acabada. Nietzsche nos diz que a arte “é o elemento máximo que torna a vida possível, que seduz a vida, que estimula a vida!” (1881:289). A importância da arte extrapola questões meramente materiais, de produção técnica, de reprodução e de classes sociais. Ela, por envolver-se de forma tão íntima com o sujeito, modifica sua forma de ver e relacionar-se com o mundo em que vive. É a forma de comunicação que ultrapassa os limites da língua, do idioma. Tem sua própria linguagem. Uma fotografia, uma pintura, uma música, possui uma linguagem universal, muito além dos espaços regionais de um determinado estado ou país. O valor da arte se dá no momento em que interfere de alguma forma na vivência do sujeito na sociedade em suas diversas fases do existir. O fazer arte deve ser valorizado, independente de conhecimento técnico privilegiado, pois sendo cultura, é livre, e traduz-se em liberdade. Visto a partir dessa ótica, torna-se infundado o olhar preconceituoso, o olhar de elitização da arte, como se arte fosse produção ligada à elite e a intelectualidade. Todos somos sujeitos dentro de um processo de socialização, de apreensão de cultura, e somos artistas, pois comunicamos através da arte.
“A obra de arte verdadeira suprime na consciência daquele que recebeu a sua impressão, a distância que o separa do artista e dos outros homens que sentem como ele. É nessa supressão do seu isolamento, nessa união íntima do artista com outros homens, que está a força atrativa e a qualidade da arte.” (Tolstoi, 1898:244).
Referência bibliográfica:
BARTHES, Roland. Elements of Semiology. Cape, 1967. [Tradução brasileira: 9a. Ed. São Paulo: Cultrix, 1988]
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na Época de sua reprodutibilidade técnica”. In: LIMA, Luiz Costa (org). Teoria da cultura de massa. Rio: Paz e Terra, 1978.
BENSE, Max. Estética; Considerações metafísicas sobre o belo. Buenos Aires, Ed. Nueva Vision, 1973.
GARCÍA CANCLINI, Nestor. Consumidores e Cidadãos. Rio, Ed. UFRJ, 1995.
GRAMSCI, A. “Observações sobre o folclore”. In: Literatura e vida nacional, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.
LOPES, Maria Immacolata V. Pesquisa em Comunicação. 8ª. Ed. São Paulo: Loyola, 2005.
MARTÍN-BARBERO, Jesús, (Entrevista) Uma aventura epistemológica. Revista Matrizes, n.2, Ano 2, p. 143 a 162. São Paulo: ECA-USP/Paulus, 2009.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Globalização comunicacional e transformação cultural. In: Moraes, D. (org) Por uma outra comunicação. Mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro, Record, 2003.
NIETZSCHE, F. “A arte – uma vontade de poder”. In: A vontade de poder, Poseidon, 1881.
NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo, Editora Ática, 2005.
SPENGLER, Oswald. A decadência do ocidente. Rio de Janeiro, Zahar, 1918.
TOLSTOI, L. Que é a arte?. Paris, 1898.
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