quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ESTEREÓTIPOS E PRECONCEITOS: USO E PRODUÇÃO NA FORMAÇÃO DISCURSIVA


Assim, a ideologia da imprensa retorna ao cotidiano, onde exerce seu controle, disseminando temas que ela privilegia para iluminar campos de sentido e destacar assuntos para as interações verbais do cotidiano, que ela mantém, substitui, amplia, dilui, planta, ou apaga pelo silêncio, atendendo a interesses explícitos, implícitos, ou até inconscientes, em virtude de estar conformada a uma ideologia assimilada do hábito de compactuar com certos grupos.”

M. L. Motter

INTRODUÇÃO

O presente trabalho, que se trata de um estudo de caso, tem o propósito de apresentar a utilização dos estereótipos na mídia impressa, utilizando como exemplo a maior revista semanal de circulação atualmente no mercado brasileiro, e também a de maior influência entre seus leitores, a revista Veja, conforme pesquisa apresentada nas próximas linhas. Através de reportagens realizadas pela publicação em estudo, será analisado o uso de estereótipos e seu aprofundamento na sociedade, compreendendo essa utilização através de textos de grandes autores como Bachtin, Heller, Marx, dentre outros, abrangendo temas como ideologia, discurso, linguagem e a configuração do preconceito. Trata-se de uma tentativa essa abordagem, privilegiando o senso crítico sem subestimar a importância do conteúdo apreciado.

Além do exposto acima, o objetivo deste projeto não é criar nem uma espécie de juízo de valor, mas sim, contribuir para que seja ampliado o entendimento sobre o assunto, utilizando-se, para isso, de reportagens publicadas pela própria revista.

A REVISTA VEJA

Recente pesquisa realizada em março de 2010 sobre os Hábitos de Informação e Formação da Opinião Pública1 pelo Instituto Meta, coloca a revista Veja como a principal publicação impressa de informação entre os brasileiros acima de dezesseis anos. Além da Veja, foram mencionadas também as revistas Época, Isto É e Carta Capital, com uma parcela no mercado muito abaixo da revista estudada neste trabalho. Para nosso interesse, será dado um destaque apenas a dois dados do relatório desta pesquisa:

  1. Entre o público leitor de revistas (34,9% dos entrevistados), metade respondeu que leem mais a Veja (50,4%);

  2. Entre os leitores da revista Veja, um em cada quatro responderam que leem apenas esta revista.

O intuito do destaque aos dados acima é apenas confirmar a Veja como a maior revista de informação do país e a mais influente entre os leitores brasileiros. Publicada pela Editora Abril, foi fundada em 1968 pelos jornalistas Victor Civita e Mino Carta, atingindo atualmente tiragens acima de um milhão de exemplares. A revista tem como principal foco a abordagem de temas do cotidiano da sociedade brasileira, envolvendo comportamento, cultura, religião, economia e política. A escolha da Revista se dá, então, por ser a mais influente na formação da opinião pública, tratando de assuntos que são discutidos nas relações sociais cotidianas ou até em patamares mais superiores.

REPORTAGENS

O material utilizado nesse estudo trata-se de reportagens realizadas pela revista na última década, envolvendo personalidades de diversas áreas como o cineasta Oliver Stone, o presidente venezuelano Hugo Chaves, o jogador de futebol Maradona, o escritor Frei Betto e a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Abaixo, um breve resumo de cada reportagem:

Edição 1840 de 11 de fevereiro de 2004

“Perua na lama”1

Nesta edição, a então prefeita de São Paulo Marta Suplicy é hostilizada pela população pobre de São Paulo, conforme reportagem. A matéria também avalia a roupa utilizada pela prefeita, dizendo que seu guarda-roupa é “um dos mais caros do país”, e que a periferia “nem de longe pode se vestir como ela, por comparecer sempre impecavelmente trajada.”

Edição 1894 de 02 de março de 2005

“O papa sofre e o mundo reza”2

Tratando da degradação da saúde do papa João Paulo II devido à doença de parkinson, a revista se refere ao premiado escritor de Belo Horizonte, Frei Betto, como “padre de passeata”.

Edição 1931 de 16 de novembro de 2005

“O perfeito idiota latino-americano” 3

A cobertura desta reportagem trata da superação de um dos maiores jogadores do mundo, o argentino Diego Armando Maradona, após sucessivas crises relacionadas ao seu consumo de drogas e sua afinidade com algumas personalidades políticas socialistas.

Edição 2051 de 12 de março de 2008

“Por que Chavez quer a guerra”4

Nesta reportagem, que trata de conflitos políticos e ideológicos entre os governos venezuelano e colombiano, a revista, através do jornalista Jerônimo Teixeira, situa o presidente venezuelano Hugo Chaves dentro da categoria dos “caudilhos fanfarrões”, que tem como principal característica o destempero verbal.

Edição 2168 de 09 de junho de 2010

“O perfeito idiota americano”1

Oliver Stone, um dos maiores cineastas americanos, ganhador de dois prêmios Orcar e dois Globos de Ouro, além de diversos outros prêmios e indicações ao redor do mundo, é enquadrado nesta reportagem como um perfeito idiota americano, que dispara tolices pelas ruas de Havana, Cuba. A matéria aborda um filme-documentário do cineasta sobre uma provável revolução bolivariana na América latina.


As reportagens acima servirão de base para nosso estudo, contribuindo para o entendimento dos principais motivos pelo qual a revista se utiliza comumente desses termos para as personalidades citadas nas matérias.

ESTEREÓTIPOS E PRECONCEITOS

Os estereótipos surgem dos relacionamentos da vida cotidiana. São inerentes às relações sociais. Trata-se de uma espécie de generalização do indivíduo através de um fragmento, de uma característica, devido à falta de tempo disponível para o aprofundamento no outro, naquele que convivemos diariamente. Walter Lippmann, no seu livro Meios de Comunicação de Massa (1922) diz que “na maior parte das vezes, não vemos primeiro para depois definir, mas primeiro definimos e depois vemos. Na grande confusão florida e zunzunante do mundo exterior colhemos o que nossa cultura já definiu para nós, e tendemos a perceber o que colhemos na forma estereotipada, para nós, pela nossa cultura.” Nossos comportamentos em sociedade acabam demonstrando características muito singulares que criam uma certa identidade nossa no convívio social. Isso é muito comum. Lippmann, na mesma obra, acrescenta que “não há tempo nem oportunidade para o conhecimento íntimo. Ao invés disso, notamos um traço que marca um tipo conhecido e enchemos o resto do quadro com os estereótipos que trazemos na cabeça”, ou que nos trazem à cabeça, à consciência. Esses fragmentos da pessoa humana, essas pequenas características podem ser ressaltadas com o intuito de se criar um estereótipo, alimentando assim o imaginário coletivo. Personalidades públicas, como as utilizadas pela Veja nas reportagens acima, possuem um natural distanciamento do leitor, dificultando o seu conhecimento mais íntimo. Suas características, marcantes ou não, podem ter sido apropriadas pela revista com objetivos que tentaremos entender nas próximas linhas.

Se temos dificuldades para conhecer mais profundamente aquele que está mais próximo de nós na nossa vida diária, temos muito mais dificuldades para conhecer as pessoas que estão mais distantes, como as citadas nas referidas matérias. Pela dificuldade de conhecê-las mais de perto, o indivíduo acaba adotando, até inconscientemente, os valores expostos, principalmente quando se trata de meios de comunicação de massa, como no caso da Revista Veja, pela sua massiva participação nas relações sociais, a menos que a educação nos tenha tornado “agudamente conscientes”, como salienta Lippmann.

Estereótipos, como vimos anteriormente, é uma generalização. Mais o seu aprofundamento torna-se uma ultra-generalização, configurando o preconceito, um conceito antecipado, um pré-julgamento.

“Os juízos provisórios (e os preconceitos) são meros exemplos particulares de ultrageneralização. Pois é característico da vida cotidiana em geral o manejo grosseiro do “singular”. (Agnes Heller, 1970)


Esse manejo grosseiro do singular, do indivíduo, pode servir de propósitos nem sempre muito claros. As personalidades utilizadas pela Revista Veja nas reportagens analisadas neste estudo, tratadas como “idiotas”, “fanfarrões” e “perua”, possuem uma característica muito semelhante nas reportagens acima: todas elas tem um posicionamento político ligado às camadas mais pobres da sociedade ou a movimentos sociais na vida pública. Frei Betto, Marta Suplicy e Hugo Chaves são, notoriamente, ligados a movimentos sociais e privilegiam seu feitos em prol das camadas mais necessitadas da sociedade. O frade dominicano foi um dos fundadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), formada por pessoas de classes mais populares, e é consultor de movimentos sociais como, por exemplo o MST. Marta Suplicy é membro do Partido dos Trabalhadores (PT) e Hugo Chaves é, assumidamente, um presidente socialista. Maradona e Oliver Stone apresentam, nas matérias, também uma certa simpatia pelos líderes ditos de “esquerda”.

Coincidência ou não, o uso de estereótipos preconceituosos pela revista cria uma atmosfera relacionada às diferenças de posicionamento político-ideológico, tentando destruir imagens de grandes personalidades apenas por essas diferenças. Agnes Heller, quando trata dos preconceitos, afirma que:

a maioria dos preconceitos, embora nem todos, são produtos das classes dominantes, mesmo quando essas pretendem, na esfera do para-si, contar com uma imagem do mundo relativamente isenta de preconceitos e desenvolver as ações correspondentes. O fundamento dessa situação é evidente: as classes dominantes desejam manter a coesão de uma estrutura social que lhes beneficia e mobilizar em seu favor inclusive os homens que representam interesses diversos (e até mesmo, em alguns casos, as classes e camadas antagônicas).”

o desprezo pelo “outro”, a antipatia pelo diferente, são tão antigos quanto a própria humanidade. Mas até a sociedade burguesa, a mobilização de sociedades inteiras contra outras sociedades, mediante sistemas de preconceitos, não constituiu jamais um fenômeno típico... O típico, nas lutas de então, era antes o respeito pelo inimigo: gregos e troianos estimavam-se reciprocamente, do mesmo modo como as grandes famílias que combatiam entre si durante o feudalismo clássico.(Agnes Heller, 1970)

Quando a Revista Veja trata essas personalidades com os termos pejorativos utilizados nas matérias está desrespeitando o indivíduo e ignorando toda sua trajetória e contribuição enquanto figura pública, seja nas artes, no esporte ou na política. O preconceito, além de prejudicial para o bom relacionamento social e cordial, é alienante, e sendo alienante impede uma autoavaliação, e que êxitos atingidos por essas pessoas vítimas do preconceito não tenham o mesmo destaque e cobertura expostos na vida cotidiana ou nos meios de comunicação de massa. Agnes Heller afirma que “há duas coisas que o homem predisposto nunca é capaz de fazer: corrigir o juízo provisório que formulou sobre um grupo baseando-se em sua experiência posterior, e investigar acerca da profundidade da integração dos indivíduos em seus respectivos grupos.” A predisposição ao preconceito não constrói o futuro, e também destrói o passado, pois é muito conveniente fazê-lo dentro de certos discursos ideológicos.

IDEOLOGIA E FORMAÇÃO DISCURSIVA

Marx e Engels identificam ideologia com a separação que se faz entre a produção de ideias e as condições sociais e históricas em que são produzidas, afirmando que “a produção de ideias, de concepções e da consciência liga-se, a princípio, diretamente e intimamente à atividade material e ao comércio material dos homens, como uma linguagem da vida real.” No entanto, segundo Marx e Engels, o que as ideologias fazem é desviar esse conceito, invertendo o percurso, fazendo com que as ideias se desvinculem da produção material das condições de existência. Os intelectuais, detentores do conhecimento teórico, se apropriariam da ideologia, fazendo com que suas ideias prevaleçam sobre as classes inferiores:

as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual. (…) Na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que o façam em toda a sua extensão e, consequentemente, entre outras coisas, dominem também como pensadores, como produtores de ideias.” (Marx e Engels, 1965:14)

Paul Ricoeur (1977), quando atribui à ideologia a função geral de mediadora na integração social, acentua também a sua função deformadora, aproximando-se das teorias marxistas. Atribui o fenômeno ideológico como “escamoteador da realidade social, apagando as contradições que lhe são inerentes”, conforme escreve Helena Brandão. Esse fenômeno servirá de base de manobra para a produção e formação de um discurso ideológico, com o intuito de impor o pensamento de uma classe sobre outra. O discurso ideológico, como define Helena Brandão, “faz um recorte da realidade, embora, por um mecanismo de manipulação, o real não se mostre na medida em que, intencionalmente, se omitem, atenuam ou falseiam dados, como as contradições que subjazem às relações sociais.” (Helena H. N. Brandão, 2004:27)

O discurso é a aplicação da ideologia de forma concreta, seu instrumento de interferência na realidade, sua materialização:

constituindo o discurso um dos aspectos materiais da ideologia, pode-se afirmar que o discursivo é uma espécie pertencente ao gênero ideológico. Em outros termos, a formação ideológica tem necessariamente como um de seus componentes uma ou várias formações discursivas interligadas. Isso significa que os discursos são governados por formações ideológicas.” (Helena H. N. Brandão, 2004:38)

As reportagens utilizadas neste trabalho, tratando-se de um discurso materializado através de um texto, apresenta evidências na sua formação discursiva carregada de conteúdo ideológico. O tratamento pejorativo dado às personalidades, acrescentando aí suas afinidades políticas “à esquerda”, demonstra um certo rancor, um certo desprezo da revista por aqueles que posicionam-se diferentemente de sua linha editorial, nunca assumida pela mesma mas evidente através de seus textos. A revista, sabendo de sua grande influência na sociedade, e certamente muito consciente da sua responsabilidade, pretende mostrar que certas posições políticas, dentro de uma certa conjuntura, são desvios comportamentais, desequilíbrios mentais, fanfarronices e até idiotia. Tem-se a impressão que os destaques dados a certos comportamentos são exatamente para auxiliar na construção de um discurso ideológico objetivando a formação de uma imagem deturpada das personalidades apreciadas nas matérias junto aos leitores, sejam eles politicamente neutros ou simpatizantes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho teve como principal objetivo fazer uma tentativa pormenorizada de analisar a utilização dos estereótipos pela revista Veja, através das reportagens realizadas pela própria publicação. Percebe-se pela análise uma tentativa da revista, através do aprofundamento de algumas características das personalidades avaliadas, de degradar ou modificar imagens segundo critérios ideológicos relacionados à diferenças políticas. Percebe-se também a linha ideológica defendida pela revista, apesar de nunca assumir claramente no seu editorial. Apesar dessas conclusões, não é o intuito deste trabalho, conforme dito anteriormente, criar juízos de valor, mas sim contribuir para o entendimento acerca da produção de reportagens por revistas com uma grande abrangência territorial como a da Veja. Faz-se necessária essa compreensão, pois quanto maior consciente o leitor for com relação aos meios de comunicação, melhor será o serviço prestado pelos responsáveis por essas empresas e melhor seu relacionamento com elas. Conforme Maria Lourdes Motter, “identificar as estruturas de poder que regem os discursos da imprensa impõe considerar as forças que impulsionam e levam-na a expressar ideologias que a cada edição reafirmam os valores próprios do grupo que a sustenta.”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.

BRANDÃO, Helena N. Introdução à análise do discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 1991.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

LIPPMANN, Walter. Meios de comunicação de massa. São Paulo: Cultrix, 1980.

MOTTER, Maria Lourdes. Cotidiano e linguagem, in: BACCEGA, M.A. (Org.) Gestão de processos comunicacionais. São Paulo: Atlas, 2002.

ORLANDI, Eni P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Ed. Unicamp, 1999.

1Dados retirados do Relatório de Pesquisa Quantitativa sobre os Hábitos de Informação e Formação da Opinião Pública, Instituto Meta, Março de 2010.

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